já comentei aqui o quanto a maternidade faz parte das minhas reflexões. tenho 32 anos, sou casada há 2 e à minha volta quase todas as mulheres estão empenhadas em criar filhos ou engravidar. e isso não é força de expressão: quase todas as minhas amigas mais próximas estão se preparando para engravidar, sem mencionar as que já têm filho ou estão partindo pro segundo (ou terceiro, quarto e etc).

além disso, penso muito no assunto porque já há algum tempo (e felizmente!) me livrei da ideia de que eu tinha que ter filhos. hoje fico feliz por ter me livrado dessa obrigação e me permito escolher. e, prá isso, é preciso refletir, o que tenho feito. hoje, prá engrossar mais o caldo dessa reflexão, li dois textos sobre o tema. então quis falar.

primeiro quero dizer que não fui uma mulher que sonhou com a maternidade. desde cedo brinco de escolher nomes para meus possíveis filhos, mas minhas fantasias a esse respeito sempre pararam por aí. não romantizei, não idealizei nem nunca vi a maternidade como algo fundamental para que eu fosse feliz. nos momentos em que estive muito dentro da igreja internalizei como verdadeiro o discurso de que um casamento sem filhos não era possível nem correto, mas já me livrei dessa onda e não quero (mesmo) mais saber dela. e então a maternidade realmente virou uma escolha: sim ou não? nesse processo, observo e analiso a maior parte das razões que as pessoas normalmente dizem ter prá procriar. e faço isso não com o intuito de julgar nada nem ninguém, mas só prá observar se essas razões são minhas também, se fazem eco em mim. e o resultado é: quase nenhuma faz.

já ouvi gente dizendo que quer ter filho prá ter companhia ou alguém que cuide dele na velhice. acho um horror e esse motivo não me pega. primeiro porque eu acho que isso pressupõe a obrigação imposta ao filho de cuidar de você, o que acho uma sacanagem com ele. não acredito muito em amor incondicional e acho ser bastante possível que seu filho simplesmente não goste ou não queira conviver com você. nessas condições, jogar nele a responsabilidade de te fazer companhia ou cuidar de você me parece o resgate de algum investimento tipo previdência privada, o que acho tenebroso. fora que esse discurso normalmente me faz pensar que a pessoa que o defende na verdade não quer, naquele momento, ter filho. ela pensa que no futuro vai precisar dele. e talvez eu seja definitivamente imediatista, mas não costumo tomar decisões pensando unicamente no futuro sob o custo de transformar meu presente em algo que eu não quero ou não gosto. tenho, aliás, uma dificuldade muito grande de fazer isso e às vezes pago um preço enorme por agir assim (mas isso é assunto prá outro post).

outro motivo que já ouvi algumas vezes é o “quero ter um filho prá que minha vida não seja entediante / criar uma pessoa vai trazer mudança, diversidade e “emoção” pro meu dia a dia”. não tenho dúvida nenhuma de que ter filho muda muito a vida, mas não acho que essa seja a única maneira de ter essas mudanças, se elas são desejadas. acho também que a ideia de que a vida vai continuar igual caso não se tenha filhos bastante limitadora, quase como se a pessoa não tivesse o poder de provocar, a qualquer momento, as mudanças que quer. e eu acho que temos esse poder. gosto de mudar, de mudanças e não me lembro de ter ficado “parada” em estado algum da minha vida. mesmo que  internas, mudanças sempre aconteceram comigo.

acho que dá prá perceber que eu tendo a não ser muito atraída pela ideia de ter filho, né? por que? 

das coisas que mais gosto da vida, hoje, é poder ser o centro das minhas decisões e atitudes. pensar em mim e tirar, de mim, as razões para fazer ou não alguma coisa. e acho que filho limita isso. como a zel comentou no post dela (e eu concordo, mesmo não tendo filho), a maternidade exige o altruísmo absoluto. talvez não sempre e nem prá sempre, mas por boa parte do tempo sim. e hoje isso não me atrai. vivi por tanto tempo tão alienada de mim mesma, das minhas opiniões e desejos que hoje meu grande barato é justamente fazer o caminho oposto ao da maternidade: olhar prá mim, valorizar meus desejos, minhas vontades, minhas escolhas. como também não acho que é legal ter ou ser uma mãe que não renuncia a nada pelo filho, me abstenho de ser mãe, ao menos por enquanto.

outra coisa que pega é o fato de não ter atração nenhuma pela vida doméstica. casa, comida e etc são pontos que terceirizo com prazer e alegria porque realmente não gosto de fazer nem de me preocupar com nada disso. e imagino que com filho não tem como se abster dessas atividades: é preciso se preocupar com a comida dele, roupa, escola… tenho um receio enorme de, de repente, ter um filho e me ver chateada tendo que cuidar dessas coisas que tomam o tempo que eu gostaria de investir em outras atividades.

e por último, o argumento que me faz estremecer: amor. como comentei, tenho dificuldade de entender a ideia de que realmente existe um amor incondicional. o próprio termo já me incomoda: amar alguém independente da forma como a relação é estabelecida e se mantém? não me convence, não acredito. acho, na verdade, que os sentimentos existem a partir de uma relação que é boa e que alimenta esses sentimentos. e aí está meu calo: serei capaz de amar uma pessoa que não sei quem é, como é nem qual relação terei com ela? serei capaz de investir (trabalho, esforço, dinheiro) e renunciar a uma série de coisas importantes prá mim “no escuro”? a ideia me dá calafrios e eu confesso: morro de medo. medo de fazer todo o investimento e todas as renúncias e depois, simplesmente, não ter afinidade com a pessoa, não gostar dela (ou ela de mim) ou não ter um relacionamento legal. de novo, penso nessas possibilidades porque não acredito muito na ideia de amor incondicional e sei que prá que qualquer relação se mantenha e seja boa é preciso fazer um investimento enorme. estarei disposta, mesmo se a relação não for, prá mim, prazerosa e recompensadora? acho que não (ou melhor não, por enquanto. talvez mude).

e é nesse ponto em que estou hoje. mas permaneço atenta a mim mesma e aberta às mudanças de ponto de vista, sentimentos, desejos e curiosidades. acredito que elas podem acontecer e talvez por isso há tanto tempo o assunto me interessa tanto (e creio que vai continuar interessando).